Monina Távora

Texto de Sergio Abreu Gravações ↓

3 de maio de 2021. Centenário de Adolfina Raitzin de Távora, Dona Monina.

Hoje comemoramos o centenário de nascimento da musicista e violonista argentina Adolfina Raitzin de Távora, que adotou o nome artístico “Monina Távora” durante uma longa estada nos Estados Unidos entre os anos de 1952 e 1953.

Não tenho como resumir em poucas palavras minha convivência com Dona Monina. Ela era uma enciclopédia, de música, de vida, de elegância, de caráter, de coerência, de integridade artística. Nada com ela era vulgar. Era uma pessoa profundamente complexa que, no entanto, sabia mostrar simplicidade em tudo o que fazia na música. Isso é imediatamente constatado quando se ouve uma interpretação dela ao violão: tudo no lugar, tudo bem sentido e pensado, tudo elegante, nada rebuscado ou pretensioso. A interpretação emana do sentido contido na própria música sem apelar para qualquer recurso artificial, com a espontaneidade e a naturalidade que apenas os sábios conseguem atingir.

Convivi com ela desde que eu tinha 12 anos de idade e posso dizer, sem nenhuma dúvida ou exagero, que sem ela eu não teria tido a carreira que tive, nem como músico nem como luthier. Levados pela mão de nosso avô, eu e meu irmão Eduardo percebemos desde o nosso primeiro encontro estar lidando com um ser humano sem par, sabíamos estar recebendo um privilégio único, sendo que sua presença amiga permaneceu conosco durante esse meio século que se passou até o final de sua vida, por maior que fosse a distância física nos separando.

Adolfina Raitzin nasceu na Argentina em 3 de maio de 1921 e teve uma infância diferenciada: seu pai era um psiquiatra revolucionário, que tratava os doentes mentais em liberdade (motivo pelo qual a localidade onde estabeleceu sua clínica passou a se chamar Open-Door). Ela foi criada junto com estes pacientes e teve sua formação escolar com eles, que foram seus professores. Talvez isso tenha ajudado a moldar o ser humano singular que ela foi.

Desde muito cedo estudou violão com Domingo Prat (que a ela se referiu em termos superlativos em seu "Diccionario de Guitarristas”, que foi publicado em 1934 quando ela tinha apenas 13 anos de idade) e piano com Ricardo Viñes (durante o período em que este morou na Argentina, de 1930 a 1936). A propósito, Ricardo Viñes (1875-1943), célebre pianista catalão que viveu em Paris durante as 3 primeiras décadas do século XX, foi o intérprete preferido de Debussy e Ravel, dos quais estreou grande número de composições, várias dedicadas a ele, além de ter sido também o responsável pela primeira audição pública da Suite Iberia de Albeniz.

Adolfina decidiu-se definitivamente pelo violão quando foi apresentada a Andrés Segovia e este lhe convidou a estudar com ele, porém nunca abandou o piano. Em seu diário ela escreveu naquele dia: "Hé tocado hoy para Andrés Segovia y le gustó. Yo prometo que voy a ser una gran artista". Estudou regularmente com Segovia durante vários anos, e sobre este tinha sempre as palavras mais elogiosas e carinhosas, foi das poucas pessoas que tiveram de fato aulas sequenciais e uma convivência prolongada com o grande violonista. Ela tinha sempre na parede uma antiga foto emoldurada de Segovia com a dedicatória "Para Adolfina Raitzin, musa y artista”, e tive oportunidade de ver alguns manuscritos musicais que ela recebeu do mestre, cuidadosamente dedilhados e com belíssima caligrafia.

Durante a juventude ela teve a oportunidade de fazer amizade com músicos de várias nacionalidades que se hospedavam na quinta dos pais quando tocavam em Buenos Aires, entre eles me recordo dos nomes de Yehudi Menuhin, William Kapell, Henryk Szering. Este último ficou emocionado quando lhe mencionei seu nome após um belíssimo recital que deu em Nova York, apenas para convidados, no Centro para Relações Interamericanas na Park Avenue.

Teve um começo de carreira espetacular mas decidiu largar tudo quando se casou com o geólogo brasileiro Elysiário Távora no início da década de 1940. Pouco depois de seu casamento recebeu uma carta de Segovia, então no meio de uma turnê, expressando sua surpresa com a notícia inesperada do matrimônio, prometendo um “regalo" assim que retornasse a Montevidéu, e desejando felicidade ao casal, mas sobretudo esperando que ela nunca fizesse justiça a um antigo ditado espanhol que dizia :"La mujer bonita es el paraíso de los ojos, el purgatório del bolsillo, y el infierno del alma".

Passou a viver no Rio de Janeiro, onde residiu por mais de 30 anos e teve dois filhos brasileiros, Ruy Alejandro Távora e Virgílio Raitzin Távora, ambos diplomatas de carreira. Embora visitasse o país natal regularmente só voltou a morar na Argentina em 1977, quando o marido se aposentou. Mesmo tendo desistido muito jovem da carreira de concertista, ainda assim continuou a se apresentar esporadicamente em público ou através do radio. Em 26 de outubro de 1950 realizou um recital na Sala Leopoldo Miguez da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro que causou assombro no meio musical carioca e foi aclamado pelo crítico musical Eurico Nogueira França no jornal “Correio da Manhã”. A partir de então passou a ser muito solicitada por vários violonistas da cidade, tendo estabelecido sólida amizade especialmente com meu avô, Antônio Rebello, que por sua vez lhe apresentou meu pai, Osmar Abreu, bem como seu aluno Jodacil Damaceno, que com ela estudaram durante relativamente breve porém extremamente proveitoso período. No início da década de 1950 passou dois anos com o marido e os filhos nos Estados Unidos, quando recebeu vários convites para reiniciar a carreira musical. Durante essa temporada americana passou uma semana em Lakeville trabalhando com Wanda Landowska a interpretação de música renascentista e barroca. Seu ultimo recital em público ocorreu no Carl Fischer Hall em Nova York em 8 de junho de 1953, com sucesso arrebatador tanto de público quanto de crítica, tendo a Guitar Review se referido ao evento com as palavras "Argentinean guitarist Monina Távora in a smashing Carl Fischer Hall debut”. Fiquei surpreso com a legião de admiradores seus que encontrei naquela cidade quando lá estive pela primeira vez em 1970.

Em 1960 meu irmão Eduardo e eu fomos a ela apresentados por nosso avô Antônio Rebello, e passamos a ter aulas regulares pelos 10 anos seguintes. A partir do final da década de 60 ela passou a dar aulas intensivas também aos irmãos Sergio e Odair Assad.

Admirada e respeitada pelos violonistas cariocas, era porém igualmente temida por esses devido à sua reputação de perfeccionista, exigente, e intransigente. Como consequência suas maiores amizades no Rio de Janeiro se deram sobretudo no meio musical não violonístico. Entre seus grandes amigos e admiradores estavam o casal Francisco e Liddy Mignone, o casal Arnaldo Estrella e Mariuccia Jacovino, o crítico Antonio Hernandez. Também eram visitantes frequentes de seu espaçoso apartamento na Avenida Ruy Barbosa com vista deslumbrante para a baía de Guanabara os pianistas Antônio Guedes Barbosa e Arnaldo Cohen, o violoncelista Iberê Gomes Grosso, o cravista Roberto de Regina, além de cantores, violinistas e compositores.

Infelizmente nem todos os seus conselhos eram práticos ou realizáveis. Tendo sido grande admiradora do compositor Edino Krieger, este recentemente me relatou um encontro que tiveram anos atrás, em que ela o exortou a largar o trabalho burocrático que fazia na Funarte para se dedicar inteiramente à composição:
— Sr. Edino, um compositor da sua categoria e com o seu talento não tem o direito de desperdiçar seu tempo com outra coisa que não seja a música.
— Dona Monina, não tenho condições de ganhar a vida apenas como compositor, se eu largar esse trabalho vou passar fome.
— Sr. Edino, passe fome, mas faça só música.

Pouco depois de eu trocar a carreira de concertista pela de luthier decidi construir um violão especialmente para ela, pois sua avaliação e seus comentários me seriam de valor inestimável. Para minha grande surpresa e felicidade esse instrumento que lhe enviei em 1984 lhe estimulou a tocar novamente. Não em público, porém a partir de então realizou muitas gravações, utilizando um gravador de fita cassette caseiro, até que uma grave doença, conhecida como síndrome Guillain-Barré, quase lhe tirou a vida em meados da década de 1990 e lhe impediu definitivamente de tocar. Embora sem qualidade sonora profissional, ainda assim essas gravações exibem claramente seu excepcional estilo musical e violonístico.

No ano 2000 retornou com o marido ao Rio de Janeiro onde ficou durante 5 anos e, já viuva, voltou à Argentina para passar seus últimos anos na casa de seu filho mais velho em Open-Door, mesma região em que havia passado a infância e a adolescência. Seu estado de saúde sofreu um abalo devastador com a morte inesperada em outubro de 2010 de seu filho mais novo Virgílio. Eu tinha esperança de que, passado o impacto inicial, ela conseguisse aos poucos se recuperar. Isso infelizmente não aconteceu e ela faleceu menos de um ano depois, em 17 de agosto de 2011.

Há bastante tempo venho tentando organizar e digitalizar as gravações deixadas por Dona Monina com o objetivo de preservá-las e divulgá-las. Penso então ser uma justa homenagem a seu centenário dar uma merecida continuidade a esse trabalho.

Sergio Abreu
Rio de Janeiro, 3 de maio de 2021

Gravações caseiras, usando um violão Abreu número 7

Para baixas as faixas clique com botão direito no nome da faixa e escolha baixar aquivo. Para ouvir clique no nome da faixa.

  1. Joaquin Turina Sonata
    1. Allegro
    2. Andante
    3. Allegro vivo
  2. Diversos
    1. Manuel Ponce Preludio em Fa♯ menor
    2. Paquita Madriguera Humoresque
    3. Anônimo Canción Sefardita (arranjo de Oscar Casares)
    4. Vladimir Rebikov Plegaria
    5. Joaquin Rodrigo Tiento Antiguo
  3. Jorge Gomes Crespo
    1. Danza Argentina
    2. Norteña
  4. Milan Tesar
    1. Nature Morte
    2. Intermezzo
  5. Alberto Ginastera Triste